sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Algum dia, político

Algum dia, político

Este governo, que a desgraça tombou,
De conflito, por suspeição, em política,
Na alma lusitana ressuscitou,
O vitupério, a intriga, a ignomínia,
Já descura e olvida o escárnio,
E sente deleite no seu mal dizer,
Porque esquecido, sofre e agonia,
Nas dúvidas e nas dívidas que contrai,
As primeiras que nunca retira,
As outras, que as pague alguém.
Mordaz, afia a língua, lança a perfídia,
Sopra a voz, com a força que o fôlego tem,
Não olha a meios, nem olha a quem,
Furta, rouba, fere e mata, espolia,
Apenas por um mísero vintém.
De bestas armados, os velhos lusitanos,
Que os Descobrimentos fizeram piratas,
Na febre do ouro há quinhentos anos,
Lágrimas viúvas, namoradeiras, inatas,
Que pelos séculos perduraram e o choro,
Se mantém vivo, qual memória, despojado,
Sem puritanismos, decência ou decoro,
Continua a roubar, descarado.
Mas o ladrão, esse, subiu de posto,
Deposto o Rei, deixou o povo e virou fidalgo,
Deixou para trás uma vida infeliz e pobre,
Cresceu com a República, viveu a ditadura,
Fazendo do povo Zé, uma alma nobre.
Atirou-se à revolução, fez-se democrata,
De nobre fidalgo a banqueiro ou accionista,
Largou o fraque e passou a usar gravata,
Óculos de sol, mas braços de carteirista.
Portucale que te calaram, eu não esqueço,
Submarinos em leilão de supermercado,
Em mares que ainda hoje desconheço,
Não vos vi, nem cor, em algum lado.
Puxaste, por diplomas que eram falsos,
Por Freeport’s, ficaste em agonia,
Para ocultar um escândalo, um maior ainda,
Perdeu fé, este povo, que a Igreja renuncia.
Não tem mais ninguém em quem acreditar,
Vive afinal pobre e infeliz, mas vai à bola,
Não sei se para esquecer, se para lembrar,
Que o exemplo não nasce na escola.
Ouve-se o tumulto, em fundo,
Gritam-se palavras de ordem, manifestações,
Perde-se a gala, infunde-se o medo,
Fazem-se comícios, convocam-se eleições,
Compram-se sondagens e outros estudos,
Perde o forte, que fica fraco, muda o poleiro,
Muda-se a voz, mantém-se a crítica em tudo
As mesmas palavras, soezes, em devaneio,
À noite, em pensamentos, relembramos,
Projectos de vida que outrora fizemos,
Tudo quisemos ter e nada temos,
Só pesadelos e as lágrimas que soltamos,
Acordamos mal dormidos e pior despertos,
Praguejamos aos filhos e na mulher batemos,
Na rua impropérios ao trânsito largamos,
Em vielas e avenidas do desespero,
Ah, desditoso viver inebriante,
Que nos embriagas de ilusões,
Cala-me a raiva da impotência do poder,
Que podia eu mais, mas não sou mandante,
Pois se o fosse, muitas seriam as mutações,
Que todos desejam, mas ninguém as quer,
Chora-me a alma, turva-se a mente,
Em altruísmo selo o meu pensamento,
Que p’ra mandar não preciso doutoramento,
Mas apenas sentir, o que sente esta gente.

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