quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Beleza...

A Beleza
A beleza está nas pétalas da flor,
está no hálito morno das areias,
está no pássaro que voa e canta,
está no vento que fala comigo na meditação do antardecer.

A beleza está na rocha viva,
está nas Sílfides do incenso que aspiro,
está no olhar terno e suplicante do cãozinho
que me entende mais do que eu a ele.

Se a beleza habita em tudo quanto existe,
por que não há de habitar também
na proposta da nossa sublime união?

Mestre DeRose (Yôga). "O yôga não visa a resolver as mazelas do trivial diário e sim a grande equação cósmica da evolução."

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

UM HINO À LUSOFONIA... E COM GRAÇA

Na beleza da Pátria que é a Língua Portuguesa (cfr. Fernando Pessoa), todos os males entendidos se resolvem...
Portugal, Brasil e África sempre tiveram na "saborosa língua" modos de se deleitarem.
Ora vejam só o delicioso poema de Américo Rodrigues (imortalizado pela declamação de João Villaret)! Uma delícia...

“D. João VI e a Mulata”

Quando a corte de D. João VI
Chegou a Paquetá
Tudo servia de pretexto
P’ra censurar, p’ra criticar
Certa mulata que havia lá

Diziam que ela era um perigo
Que ela era uma tentação
E que um marquês de novo antigo
Desdenhava o rei, não cumpria a lei,
P’ra ser só dela o cortesão.

Mas quando alguém o censurasse
Pedindo ao rei que a exilasse
Pelo mal que fazia
D. João VI trincava uma coxinha
De frango ou de galinha
E sempre respondia
Já lhes disse que aqui em Paquetá
Eu sigo a lei da corte de Lisboa
E não me digam que a mulata é má
Porque eu decreto que a mulata é boa

Certa noite muito escura
A moça se assustou
Vendo surgir uma figura
Gorda, a ofegar
Que sem falar
Nos gordos braços logo a apertou
Ela sentiu-se muito aflita
Como dizer que não
Até na treva era bonita
E lá fez de conta, que ficava tonta
Sem saber que era o seu D. João.

Mas quando alguém o censurasse
Pedindo ao rei que a exilasse
Pelo mal que fazia
D. João VI trincava uma coxinha
De frango ou de galinha
E sempre respondia
Já lhes disse que aqui em Paquetá
Eu sigo a lei da corte de Lisboa
E não me digam que a mulata é má
Porque eu já sei como a mulata é boa.

post de David S. (300)

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

15 Out., Dia de Teresa D' Ávila



Teresa D'Ávila ou Teresa de Jesus; (Gotarrendura, Ávila, 28 de março de 1515 - Alba de Tormes, 4 de outubro de 1582) Religiosa e escritora espanhola, famosa pela reforma que realizou no Carmelo e por suas obras místicas

Traduções de Anderson Braga Horta
GLOSA
Já toda me dei, e, assim,
de tal sorte me hei mudado,
que o Amado é para mim
e eu sou para o meu Amado.

Quando o doce Caçador
me atirou, fiquei rendida,
por entre os braços do amor
minha alma quedou caída,
e cobrando nova vida
de tal maneira hei mudado
que o Amado é para mim
e eu sou para o meu Amado.

Com uma flecha que me deita,
enarvorada de amor,
a minha alma quedou feita
una com seu Criador;
já eu não quero outro amor,
a meu Deus me hei entregado,
que o Amado é para mim
e eu sou para o meu Amado.

post de David S. (300)

domingo, 11 de outubro de 2009

Imagem pintada por Raffaelo como alegoria da poesia (Vaticano)



Textos de Fernando Pessoa

In: LOPES, Teresa Rita - Pessoa Inédito, Lisboa, Horizonte, 1993.

Post de David S. (300) que actualizou a ortografia da transcrição.


“[POETAS PENSADORES]

Poetas pensadores são de 3 espécies:

(1) Aqueles em que o poeta e o pensador estão absolutamente fundidos (Antero).

(2) Aqueles em que o pensamento e a expressão poética dele se acham inteiramente separados, de modo que o pensamento é conscientemente posto em verso, ainda que, sendo a natureza artística intensa, em magnífico verso (Goethe, em parte, Hugo, às vezes, os poetas do séc. XVIII).

(3) Aqueles em que o pensamento é pensado poeticamente, mas não realizado com perfeito (e artístico) afastamento; sem confusão, modeladora em perfeita arte ao pensamento (Bocage, Wordworth, Pascoaes).”

“Um poema é uma obra literária em que o sentido se determina através do ritmo. O ritmo pode determinar o sentido inteiro ou parcialmente. Quando a determinação é inteira, é o ritmo que talha o sentido, quando é parcial é no ritmo que o sentido se precisa ou se precipita.”

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Momento de reflexão com... Jean Toomer


Jean Toomer (1894 - 1967) Escritor, Poeta e Filósofo Americano.

Gente, tradução e post de David S.(300)


Para quem olha o branco,
o branco branco é.
Para quem olha o negro
o mesmo sucede,
vermelho é vermelho,
amarelo, amarelo.

Certo é que há visões
no mundo multicolor
ou sonhando.
Surpreende que essas pessoas
nunca a si se vejam,
nem a ti, nem a mim.

Não estarão no seu próprio pensamento?
Não existiremos nós no mundo?
Eis uma peculiar cegueira
que cega de cores quem vê.
Que estulto crerá
que aqueles que crêem em visões
não creiam em visionários?

Ó Gente, se usásseis
os vossos outros olhos
veríeis outras gentes existindo.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Momento de reflexão com... Ruy Belo

Ruy Belo (1933-1978). Poeta que trabalhou as palavras como se fosse um artesão...tornou a poesia numa aventura da linguagem.

Oh as casas as casas as casas

Oh as casas as casas as casas

as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
ela morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas
Ruy Belo

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Bem-Vindos ao blog do Gente Viva!!!

Hoje, o Gente Viva ganhou um cantinho no ciber-espaço. Vamos aproveitá-lo para divulgar o nosso trabalho e partilhar opiniões e o gosto que nos une: a poesia.

E porque se ama poesia, deixo um poema que me "saiu na rifa" num dos primeiros encontros GV.

Acordar na rua do mundo
madrugada, passos soltos de gente que saiu
com destino certo e sem destino aos tombos.
no meu quarto cai o som depois
a luz. ninguém sabe o que vai
por esse mundo. que dia é hoje?
soa o sino sólido as horas, os pombos
alisam as penas, no meu quarto cai o pó.

um cano rebentou junto ao passeio.
um pombo morto foi na enxurrada
junto com as folhas dum jornal já lido.
impera o declive
um carro foi-se abaixo
portas duplas fecham
no ovo do sono a nossa gema.

sirenes e buzinas. ainda ninguém via satélite
sabe ao certo o que aconteceu. estragou-se o alarme
da joalharia. os lençóis na corda
abanam os prédios, pombos debicam
o azul dos azulejos. assoma à janela

quem acordou. o alarme não pára o sangue
desavém-se. não veio via satélite a querida imagem o vídeo
não gravou
e duma varanda um pingo cai
de um vaso salpicando o fato do bancário.

(Luiza Neto Jorge)